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30.11.03

Tá chegando a hora de bater as asas

Tá chegando. Próximo sábado, dia 6, às 19h, no Restaurante Ráscal da Alameda Santos, esquina com a Rua Joaquim Eugênio de Lima (Jardim Paulista - São Paulo/SP), o lançamento da quarta antologia dos Anjos de Prata. Estarei lá e na página 77 do livro, não necessariamente nesta ordem.
Apareçam.

[Edison Veiga Junior]
ouvindo o necessário Chico num pacato domingo recheado de trabalhos acadêmicos

Fala aí!

Um taquaritubense que veste asas  

Entrevista baba-ovo publicada no Jornal Taquary News em 10 de novembro de 2003.

O escritor e poeta Edison Veiga Junior prepara-se para mais um momento importante de sua carreira: o lançamento do livro dos “Anjos de Prata”


Se você entrar num buscador da Internet, estilo Google, e digitar “Edison Veiga”, cerca de cento e vinte sites aparecerão em sua tela. Isso significa que a popularidade desse jovem escritor taquaritubense está crescendo cada vez mais na rede mundial de computadores. “Considero importante ter um espaço na Internet, embora não embarque na onda dos deslumbrados com a tecnologia”, disse Edison, ao Jornal Taquary News. “Na verdade, vejo a Internet como mais um meio, apenas, para se fazer literatura. Nada além disso”.

Daqui a menos de um mês, no dia 6 de dezembro, Edison participará de mais um livro. Será o oitavo. Depois de ter poemas publicados em seu próprio livro, “Enigma”, em coletâneas (“Poetrix Antologia”, “I Caderno Internacional Poetrix – livro digital”, “Perfil 2002”, “Estudantes do Brasil 2000” e “Mapa Cultural Paulista”) e em parceria (“Realidades Versejadas em Poetrix, vol. 2”, com Oswaldo Francisco Martins”), o taquaritubense faz sua estréia em prosa. Seu conto “A dor da gente não sai no jornal” integra a obra dos Anjos de Prata.

Mas quem são esses Anjos? “Os Anjos de Prata nunca foram querubins: nasceram grandes, fortes e abusados. Feitos com barro da melhor qualidade, ganharam vida com o sopro do criador Mario Prata que, após observar os impacientes novatos que voejavam ao seu redor deu a ordem: criem!”, explica Anna Cristina Saeta de Aguiar, integrante do grupo e webmaster do site www.anjosdeprata.com.br. Inspirados pelo famoso cronista Mario Prata, os anjos exercitam a arte de apreender o cotidiano através de contos e crônicas a cada quinze dias. Edison participa do grupo desde setembro de 2002.

Se você estiver interessado em adquirir o livro, mande um e-mail para edisonjornalismo@yahoo.com.br, encomendando-o. Devido à própria organização da coletânea, provavelmente pouquíssimos exemplares serão disponibilizados para o público. Portanto, é bom reservar logo o seu.

Em entrevista exclusiva, via e-mail, ao Jornal Taquary News, Edison Veiga Junior fala sobre o lançamento do livro.

Taquary News – Qual a importância de participar de um grupo como os “Anjos de Prata”?

Edison Veiga Junior – Olha, é um estímulo pra gente escrever sempre. Se eu ficar mais de dois meses sem mandar um texto para o site, vou para o purgatório. É sério: temos um regulamento que nos “obriga” a escrever com freqüência. E isso é ótimo contra a preguiça que sempre quer me vencer e tal. Além disso, os “Anjos” acabam funcionando como uma oficina literária mesmo, pois vamos experimentando sempre. Temos uma lista de discussão via e-mails onde procuramos expor nossos rascunhos e lapidarmo-nos uns aos outros.

TN – Daqui a menos de um mês será lançada uma coletânea de contos dos “Anjos” da qual você participa. Qual será o seu texto e como ele é?

EVJ – “A dor da gente não sai no jornal” é um texto leve, porém provocativo. Nem um pouco lúcido, mas muito consciente. Foi livremente inspirado naquele curta-metragem do Jorge Furtado que todos os jovens anos 90 assistiram, ao menos uma vez na vida, na escola. Eu mesmo vi umas quatro ou cinco vezes: o Edison Salaki mostrou pra gente na quarta-série e eu pirei. Depois assisti acho que na oitava ou no colegial. E na faculdade, já foram umas três vezes... O curta é pungente, ácido. Mas não é só isso. Meu texto também tem influência explícita de Nietzsche, de Drummond, dos Mutantes, do Chico Buarque e mais gente que agora eu não me lembro porque faz tempo que o escrevi.

TN – O ano está terminando e, dentro de breve, você terá terminado o segundo ano da faculdade de jornalismo. O garoto que trabalhava neste jornal há alguns anos está, aos poucos, se tornando um verdadeiro jornalista. Como você vê isso?

EVJ – Costumo dizer que sou quase “meio jornalista” (risos). Mais um mês e terei terminado metade do meu curso. Mas prometo que não vou ficar aqui me lamentando da efemeridade da vida e outras conversas de botequim. Não vou ficar aqui com aquelas filosofias de bêbados no final de domingo, dizendo que as coisas são passageiras, menos o cobrador e o motorista. Quero deixar claro que cada vez mais busco o jornalirismo do jornalismo. Não quero um jornalismo que não seja libertação das velhas amarras. Não quero um jornalismo que seja só ética. Quero ética e estética. Ou vice-versa.
A universidade me propicia pensar bastante. Me propicia experimentar. Lá não existe a palavra “não”. Então que devem ser quatro anos de laboratório, de testes, de viagens viscerais pelo mundo do jornalismo (ou melhor: do jornalirismo).


TN – Você está participando de alguns projetos aí em Bauru? Está praticando o jornalismo?

EVJ – Isso é importante. Sempre quis estudar em universidade pública. Quando entrei na Unesp, aqui em Bauru, pensei: ‘só me sentirei um universitário completo se tiver usufruído das três características fundamentais de uma universidade pública conceituada: ensino, pesquisa e extensão’. Ensino é o natural para todos. Se eu não freqüentar ao menos setenta por cento das aulas estarei reprovado. Então não tem como escapar. Mas há a necessidade da pesquisa e da extensão. Porque tem grana pública investida em mim. Você que está lendo este jornal paga impostos e acaba sustentando todo esse fantástico espaço que é a universidade pública. Como posso retribuir isso? Exercendo minhas funções intelectuais, ora essa.
Então que hoje, antes da metade de meu curso, posso olhar para o espelho e me ver realizado. Já consegui fazer uma pesquisa de Iniciação Cientítica (“Análise Semiótica da Notícia Enquanto Instrumento de Controle”), para a qual o Governo Federal me pagava uma bolsa através do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico). Já consegui fazer um projeto de extensão, um jornal especializado em saúde que circula em dois bairros periféricos aqui de Bauru, mensalmente, desde junho, financiado pela Pró-Reitoria de Extensão Universitária da Unesp.
Olha bem. Jamais me sentirei um sanguessuga da universidade pública. Fazendo pesquisa, contribui para aumentar o conhecimento sedimentado na Universidade: foi minha maneira de pagá-la por acreditar em mim. Fazendo extensão, contribuo para que a comunidade na qual estou inserido (no caso, a cidade de Bauru) não seja esquecida pela universidade e seus cidadãos tenham resgatadas noções básicas de cidadania.


TN – Também tem o seu blog na Internet...

EVJ – Ah, sim, ia me esquecendo da parte não-oficial (risos). Desde setembro do ano passado, em parceria com uma colega de sala, tenho um blog na Internet (www.un_espirro.blogspot.com). Lá despejo meus comentários sobre os fatos, alguns poemas, alguns contos... Se você tiver um tempinho a perder, dê uma passadinha por lá.

TN – E a poesia? Este ano você não vai representar a cidade no Mapa Cultura Paulista...

EVJ – Não sou mais aquele poeta de algum tempo atrás, que vomitava no papel as palavras. Ainda tenho, graças a Deus, a necessidade fisiológica de escrever, mas agora tenho mais paciência, tenho mais calma. Vai ver estou ficando velho (risos). Então... Mas você me perguntava sobre o Mapa.
Poxa, o Mapa é um motivo de orgulho para mim. Ter ficado em terceiro lugar na etapa final do ano passado e, pela primeira vez, levar Taquarituba tão longe, foi um orgulho para mim. Porque o Mapa é o único concurso no qual você representa a sua cidade. Não é você quem ganha, mas sim a sua cidade. Daí que eu pensei: qual a graça participar por Bauru? Nenhuma. Não sou daqui, sou de Taquarituba. E me inscrevi por aí. Como o circuito é dividido em etapas, isso não significa que será mais fácil ou mais difícil, pois chega numa hora que você tem que encarar os poetas de centros maiores, eliminando-os. Conheço o caminho, pois da outra vez não foi diferente.
Então fiz um poema que, pra mim, representava uma atitude bastante hodierna. Porque o Mapa é isso. Não adianta nada você escrever um poeminha do século retrasado e inscrevê-lo, por melhor que ele seja. Os caras querem novidade, os caras querem vanguarda. E meu poema continha noções pós-pós-modernas, como gosto de chamar. Era resultado de muito suor. Tinha inquietações do Woody Allen, tinha uma crítica a essa onda Matrix, tinha física contemporânea. Era antenado, como Ezra Pound conclama que sejamos. Só que senti um pouco de descaso na organização da etapa municipal. Infelizmente. Talvez seja melhor nem falar sobre isso.

Fala aí!

29.11.03

A fatídica crônica de um dia sem nuvens

1. Solitários Apontamentos

Da solidão das coisas inertes neste quarto escuro como noites sem estrela nem lua, restou apenas uma fotografia sua, amarelada já, num cantinho da memória, e o seu cheiro ainda impregnado em meus poros, minha pele.

Quando bate a saudade e eu aqui sempre sozinho, o que faço é desfolhar pela enésima vez o gasto Neruda que gosto, que carrego, não nego, desde que fomos um em nossa ambivalência ambígua de sermos ambos.


2. (...)

Reticências esparsas são a única coisa que colorem o seu céu, tão desanuviado quanto esquálido. Um quê macilento que pousa no ar, feito pássaro sem asas, feito cão sem dono ou outra bobagem qualquer. Preciso mesmo aprender um pouco de francês.

No meio do caminho tinha uma pedra, mas eu chutei a pedra. Na verdade eu chutei o caminho e agarrei a pedra com unhas, dentes e um pouco de língua. Depois sai por aí festejando o enterro de alguém como se morrer fosse a única graça da vida.

Clique
Aqui, para ler o resto do texto (sim, ainda não acabou!)
Aqui, para ler Thaís Emília
Aqui, para ler Bruno Pessa

Fala aí!

25.11.03

Conto, mas não conto  


Após ascender, assentei-me e acendi o cadafalso. Vendo-o em chamas, ainda lembrava-me do cadafalco acentuado, pra onde fui depois do acidente incidental. Assertei rapidamente que era hora de acertar-me. Afeado estava quando afiei com afinco minha ansiedade curiosa. Na verdade não era afim daquilo. A fim de quê busquei este fim?

E, em um instante, um súbito alvoroço alvorotou por mim, já augusto, naquele local angusto, inóspito. Vi uma anunciação enunciada.

Embora em vida não tivesse sido imoral, encontrava-me totalmente amoral naquela situação singular. Reconheci a área e conhecia a ária. Arriei os pálidos sentimentos. Livre estava dos arreios.

Foi quando então, percebi a origem da cantiga. O bocal da flauta bucal incessava, por detrás do verde buxo, com um bucho assoprando. Avistei todos os falecidos cabidos, que também tomavam parte naquele cenário estranho. Alguns trajavam finas roupas recém-retiradas dos cabides. E o cardíaco defunto cardeal apenas acompanhava, saindo da cela, montado na sua sela amarela.

A forte cerração prejudicava o tardio censo celestial, enquanto a serração sem senso continuava incessante sobre a carnificina da oficina vizinha. No longínquo chalé, ao mesmo tempo, estava o xá, já morto também, tomando chá serrado do dono do xale, que ostentava sabiamente, chistoso.

Existia, ao fundo, um belo campo xistoso, onde floresciam muitas cidras com sabor adocicado de sidra. No lago, ao lado, um gracioso corso. À margem, um corço embebedando-se de água, enquanto um sério sírio segurava círios, misteriosamente.

Dentro da chácara, uma sessão seccional cedia bonitas xácaras concertadas, sem mínimos consertos, As moças jovens cosiam coisas na cozinha, cúpidas da conjuntura cupida, o que acredito ser apenas uma conjetura.

Diferi o olhar, deferindo a pedidos, agradando aos desgraçados degredados degradados. Todavia, com muita discrição, me aventurei a continuar a descrição, descriminando, indiscriminadamente, todos os envolvidos.

E meu julgamento? Não sei, creio que fui dispensado. E, pasme, já me encontrava na despensa do local, onde entrei despercebido, e totalmente desapercebido.

Dissequei o local, dessecando as lágrimas tristes que ainda emergiam de meus olhos imergentes. Iminentemente me deparei com o eminente-mor, continuando, mesmo assim, a considerá-lo imérito. Ele imitiu-me oficialmente, emitindo edito próprio. Aproveitei para espiá-lo, expiando-me em seguida.

Minha estadia estava por deveras longa, informava a estádia. Esperto era, ora, mas não experto o suficiente. Permaneci estático, extático, na estância instada. As estratos alertavam-me como se fossem extratos de doces perfumes azuis. Estripei, extirpando-me.

Estava completamente fasto. Apesar dos pesares, sentia-me fausto em meio a tanta aridez férvida, fervida. As fragâncias por mim captadas flagravam as flores floridas e flóridas próximas dali. Aquele aroma fútil e fúsil fuzilava os fusíveis de meu coração, libertando das guaridas as mais dolorosas lembranças.

Das guaritas saíam os incertos guardas insertos, incipiando atitudes insipientes. Incontinenti, correram incontinentes e indefensos, como verdadeiros indefessos infringindo as regras. Tudo bem, depois seriam corretamente infligidos por tal desobediência, já que não eram mais intemeratos, mas sim somente intimoratos.

Continuei por ali, vagando vagabundo, por toda a eternidade. Este foi meu destino sem tino, vadiar pelo paraíso obscuro, desprovido da beleza inexata do Éden. Talvez fosse melhor não ter morrido, continuar um inválido valido nas mãos do velho mundo terreno.

[Edison Veiga Junior]
ouvindo um deprê Travis em uma longa madrugada insone (fazer o quê, né?!)

Fala aí!

23.11.03

Ser você

Foi rápida a associação de idéias, mais rápida ainda a inferência quase óbvia: deve ter mais vida dentro daquele homem do que os quarenta e cinco anos aparentes. Deve ter mais vida pra caber tudo o que ele tinha visto ouvido lido estudado comido conhecido olhado assistido colhido escolhido selecionado convivido escarrado sonhado cuspido vivido curtido dormido acordado sabido.

Saiu da sala e foi (a)fundar (n)a LAMA – Livre Associação dos Macacos de Auditório.

[Edison Veiga Junior]
ouvindo Mutantes

Fala aí!

22.11.03

Pesquisa escrotinha un_espirro  

Você acha que a bruaca leu o que deveria ser lido ou comeu só as migalhas?
Responda clicando em "Fala aí"

Fala aí!

Retrato 3x4  


Toda esta mazorca tem uma explicação: não é de hoje que nossos governantes vêm confundindo liberdade com liberalismo, o povo misturando libertação com libertinagem. Não é de hoje que o palco para o fuzuê está sendo montado, com direito a contra-regra e continuísta. Não é de hoje.

Na verdade tudo começou ontem bem cedinho. Quando me levantei para ordenhar a geladeira, donde brotam as caixinhas tetrapac, o caos já estava bem formado. Ou in-formado, pois é caos. Ou in-con-formado, pois é caos. Agora está tudo tão confuso que não entendo mais nada, muito menos pra terminar este texto.

[Edison Veiga Junior]
ouvindo trilhas de desenho animado<-- comemorando sua classificação em um concurso literário

Fala aí!

19.11.03

Mais um monstrinho!  

Depois de uma longa e dolorosa gestação, enfim nasceu o PoeZine, mais uma publicação-monstrinho para minha coleção insossa. Nele, poetas incipientes (pero non insipientes!) tentam maltratar mais um pouco o mundo literário com suas parcas letras. Nesta edição cobaia, tiragem mais que limitada, estão a anjinha de prata Thaís, a premiada poetisa Carlinha e o experiente zineiro punk Fred. Ah! Sim, eu também.

[Edison Veiga Junior]
ouvindo Los Hermanos<-- os caras tão ficando bons!

Fala aí!

18.11.03

Preconceito contra notívagos

5h50 da manhã. Ou da noite, sei lá. A gente aqui querendo resolver a vida e esbarra em problemas contra notívagos...

O serviço de Declaração Anual de Isentos 2003 pela Internet está disponível durante 20 horas por dia. De 03:00 às 07:00 horas (horário de Brasília) este serviço não está disponível.
Por favor, tente mais tarde.
Obrigado!

Fala aí!

16.11.03

Resultados dos meus testes  



Que palavrão você é?



Que verbo define você?




Que data comemorativa capistalista você é?




Em qual jogo do Atari você é viciado?





Que carro nacional você é?



Que presidente você é?




Que pagodeiro você exterminaria?




Que coisa do banheiro é?




Qual é seu vício?


Fala aí!

Poesia concreta  


Estou aqui procurando a concretude da poesia pra terminar o poema que está escrito por mim com caneta retro no ignóbil vidro da janela do meu quarto.
Eis que encontro Augusto de Campos, mestre ainda vivo, ainda que morituro assumido em um de seus poemas.

Nota: Dentro os muitos poemas visuais lá existentes, escolhi a rosa acima porque sou um cara lírico ou estou um cara lírico ou onírico sou um cara lírico ou...
[Edison Veiga Junior]
ouvindo a trilha sonora do filme O Carteiro e o Poeta

Fala aí!
Do pó viemos, ao pó...


Depois de tentar ganhar a vida na legalidade, vendendo drogas e outros entorpecentes, o traficante de livros teve de voltar para os clandestinos portões da universidade. Lá, seduzia os acadêmicos com filosofia a um e noventa e nove.
- Vejam essa incrível promoção: leve dois Marx e ganhe um Jung!
Era uma enerve manhã de chuva, como hoje, quando ele decidiu que era hora de ser imortal. Doou todos os seus livros para a biblioteca e foi morar dentro da estante principal.
[Edison Veiga Junior]
ouvindo Beethoven

Fala aí!

15.11.03

Bauru domina  

Muito feliz hoje. Bruninho Pessa é o mais novo querubim dos Anjos de Prata. Meu veterano na faculdade (nos Anjos eu sou veterano dele!), o cara é muito gente boa e eu me orgulho por ter a amizade de alguém tão íntegro!)
Então, chega lá no saite e não deixe de ler o texto do Bruninho.
É Bauru dominando o espaço celestial!
[Edison Veiga Junior]
ouvindo a prosa impúrpura do caicó do Chico César

Fala aí!

CONVITE  

Os Anjos de Prata têm a honra de anunciar o lançamento de um novo livro:

As Crônicas dos Anjos de Prata, volume 4

A festa de lançamento/noite de autógrafos acontecerá em 6 de dezembro de 2003, em São Paulo. Compareça! Não perca a oportunidade de conhecer os autores e leitores da nossa página.

Ráscal Pizza & Cozinha
Alameda Santos, 810
(esquina com Al. Joaquim Eugênio de Lima)
Telefone 3141.0692
São Paulo - SP
- a partir das 19:00hs -
No evento haverá a venda de exemplares do livro.


È CLARO QUE EU VOU ESTAR LÁ!

Fala aí!

13.11.03

Agonia  

“Tenho pena da morte – cadela faminta – a que deixamos a carne
doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos...
O resto é indevorável.”
(Mário Quintana)


Tudo começa com umas manchas na pele. Amanhece o dia ou escurece a noite e lá estão elas, latentes, possivelmente doloridas, como hematomas nervosos eclodindo a cada instante. É de dar pena.

Depois vem uma dor mais pungente, irremediável. E a pele vai se tornando mais pálida, menos pele, quase só dó e restos. É o começo do fim.

Os olhos se perdem no vazio, não enxergam mais perspectiva, não têm futuro algum. As pupilas, dilatadas, parecem querer transmitir a mensagem “está se acabando” e tentam ver tudo mais bem visto porque é a última vez que o fazem. O branco dos olhos, lactoso, pequeno, deixa entrevir pequenos riscos avermelhados, que não chegam a ser hematomas, apenas riscos de sangue. Quando vêem os olhos, bem no fundo que já nem bem existe, as pessoas costumam perder o rumo; algumas viram de lado, outras fazem que não viram, a maioria cala. E quem cala consente, ou é clemente e roga pela efemeridade da vida.

As manchas vão aumentando. E as pessoas só podem ver a parte externa, não têm nem a vaga idéia de como está o organismo por dentro, numa semi-putrefação absurdamente absoluta, numa decadência de células e organelas afins que eu nem sei explicar. Do lado de fora, é visível apenas o aumento considerável e proporcional das manchas. Ah, as manchas... são praticamente um atestado prévio de óbito, um sinal de que a indesejada das gentes está a caminho, pronta para executar o sumário serviço.

A morte chega a cavalo. Chegava. Agora diz que anda de metrô ou pelo menos de ônibus. Algumas, mais ricas, fazem questão de virem com motorista e tudo, carro do ano, novinho em folha, zerinho.

Mas a vítima não sabe dessas coisas. Para ela tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentir dor, já cantava na canção. E as manchas incessantemente aumentando, num fenômeno biológico que é como se fosse, grosso e leigo modo, uma mitose às avessas, que em vez de construir, deteriora o organismo.

Começam as secreções. Cada mancha, à flor da pele, deixa escapar um líquido viscoso, gosmento, espécie de pus, sangue, ou sei lá o quê seja. E a expressão de dor é cada vez maior, cada vez mais de fazer as pessoas se compadecerem e terem piedade daquele triste espetáculo. A miséria em franca exposição.

A boca denota todo o sofrimento. Mexe devagar, inconsciente, força as barreiras, como que dizendo para a morte: “calma, tenha paciência que aqui ainda tem vida”. E o coração cada vez pulsando mais devagar, mais cansado, mais aposentado.

De repente já não se sabe o que é pele, o que são manchas. Os hematomas dominaram todo o corpo. Isso pelo lado de fora, que as pessoas podem ver. Por dentro dizem que é pior, os órgãos já estão todos danificados, mórbidos, mergulhados em um oceano escuro onde parecem despedirem-se uns dos outros.

De súbito, vem a última arfada. O derradeiro suspiro, muito ânimo nessa hora, é como se fosse a última visita que a vida faz ao organismo completo, a despedida mesmo, já de malas prontas. E então um sorriso na boca, uma estranha impressão de felicidade. Os olhos já sem expressão alguma.

Meu Deus, como é triste e lacônica a morte de um doente peixinho de aquário!

[Edison Veiga Junior]
ouvindo defect 1: gene - gene to gene remix do Tom Zé

Fala aí!

12.11.03

Mallarmé, poesia, amor aos livros...



O livro "Mallarmé" (São Paulo: Perspectiva, 1974) contém poesias do francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), com texto em francês, traduções e estudos críticos de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos.

Muito já se disse sobre a mallarmargem e outros devaneios mallarmeanos. Na verdade vejo com ressalvas tantas salvas de palmas ao poeta francês. Tudo bem que o cara foi bom e acabou influenciando diversas vanguardas poéticas do século 20. Tudo bem que o cara mudou a maneira de se pensar o verso, o reverso, o inverso e quase o universo. Mas acho que nossos poetas concretos fizeram coisa bem melhor.

Aí o leitor mais atento pode argumentar, e com toda a razão, que nossos poetas concretos fizeram coisa melhor porque leram Mallarmé e partiram de suas conquistas. Concordo plenamente e acho tanto que o leitor mais atento tem razão que às vezes fico pensando porque não entrego esta e todas as minhas resenholas em branco para que o leitor possa escrevê-las. Porque eu não entendo nada, só falo asneiras, só pincelo primeiras-impressões. Bem melhor seria se o leitor construísse suas próprias resenhas, uma espécie de jornalirismo self-service, o primeiro do mundo a ser construído totalmente pelo leitor.

"Mallarmé" vale a pena ser lido. Principalmente se você gostar de poesia e estiver pensando em estudar mais a fundo o fazer poético. Os artigos dos irmãos Campos e de Pignatari, estes três mosqueteiros da poesia concreta, são uma grande luz intelectual a fazer cócegas em nossos cérebros, pois provocam o lado esquerdo e o direito, o racional e o sensitivo, e ambos os hemisférios ficam se massageando durante a leitura. Muito bom. [Clique aqui para continuar]

Fala aí!

11.11.03

Arvorando  


Concentra-te.

Imagina que estás sentado num banco da praça.

Está um dia daqueles sem graça, em que chove uma chuvinha fina, que não sabe se molha ou se deixa em paz.

Imagina que do banco da praça, imóvel como Deus de férias no mundo em guerra, ficas a contar as gotas do chuvisco enquanto teu cérebro contempla a vida passando devagar, de vagar vagando por aí.

Há um quase silêncio, entrecortado por longínquos e eqüidistantes trovões que devem estar próximos do Atlântico. Soluça.

Concentra-te mais. Pensa que estás olhando para a maior árvore das que te circundam. E teus olhos quase a veneram, de tão gigante e onipresente que ela se faz na praça.

Passa um vendedor de guarda-chuvas:

- Não quer comprar, não, moço!? Olha que vai engrossar a chuva e você vai se molhar.

Imagina que simplesmente ignoras o apelo do mascate, introspectivo que estás em tua vã filosofia de vadio olhando a chuvinha que ensaia um espetáculo na praça.

Volta-te para a árvore. Lá está ela, bonita, toda cheia de si, balançando as folhas com uma calma baiana, grata por cada carícia que as gotas finas lhe fazem.

Concentra-te mais ainda. Procura entrar no “eu” da árvore. Faze de conta que estás penetrando nos pensamentos da árvore. Lembra-te que, mesmo sendo planta e já tendo sido muda, a árvore jamais foi cega ou surda, e sempre pensou pensamentos acerca do mundo que a cerca.

Agora imagina que estás dentro da árvore.

Melhor ainda: imagina que és a própria árvore.
Ainda não está bem. De novo, concentra-te muito nesta etapa, pois ela é fundamental para o seguimento do raciocínio: acredita que a partir de agora és uma árvore!

Pronto. Árvore que és ou estás neste instante, tens a possibilidade de perceber a vida de outra forma. És um vegetal, não tens mais braços ou pernas. Agora teus galhos só se movimentam ao léu, ao sabor do vento. Tuas raízes são fixas, imóveis, plantadas no meio da praça.
Vez ou outra pode alguém vir e arrancar-te um braço, digo, um galho. Ou este vir a cair, embalado por uma ventania brusca. Tuas raízes jamais sairão de onde estás, a não ser que alguém decida transplantar-te de lugar.

Passas quase sempre despercebido. Teu tronco, além de servir de habitat para minúsculos seres indesejados, traz insígnias, cicatrizes, na maioria coraçõezinhos de apaixonados que por ele deixaram a marca.

Vês o mundo acontecendo à tua volta e nada podes fazer. Carrega em ti toda uma vida consagrada ao silêncio e à imobilidade. És inerte, condenado aos anos de existência sem poder mover uma pedra.

Um dia vem e cais de tão velha, tombando na terra. Ou um homem bruto vem e corta-te para a morte a fim de construir um prédio de duzentos andares bem onde estavas. Percebes a crueldade? Nem sobre a morte tens autonomia, és impossível para ti o suicídio...

Atenção. Agora volta ao normal. Lembra que não és nem nunca tiveste sido uma árvore de verdade. Sempre foste gente.

E pensa nas pessoas que habitam o planeta. Quantas delas não são mais que árvores? São passivas, quietas, resignadas, indiferentes, inertes e incapazes de buscar a solução para questões cruciais. Todas arvoram, ficam por aí arvorando, arvorando, arvorando...

Não te esqueças que também és uma dessas pessoas. Somos. Todos arvorando. Ao menos se fotossintetizássemos...
[Edison Veiga Junior]

Fala aí!

6.11.03

Os irmãos Andrade


Juca-Ansado se divertia com o que lia, mesmo quando não gostava. Sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava. Porque o pai de Juca-Ansado fumava direto. E quando alguém dizia que ele ia morrer de câncer, ele concordava mesmo. Mas quando alguém lhe perguntava o porquê dele fumar desvairadamente daquele jeito, ele respondia que tinha comprado algumas ações da Souza Cruz e queria valorizar o seu produto especulatário.

Juca-Ansado era diferente de seus colegas por dois motivos. O primeiro é o mais óbvio de todos: já ninguém mais costumava ler livros no tempo de Juca-Ansado, só ele que lia, e lia assim de uma maneira obstinada e quase sexual. O outro motivo é que Juca-Ansado não se apaixonava pela história do livro, mas ficava fã mesmo era dos autores dos livros. Ou seja: sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava, e todos esses personagens eram os autores de suas próprias histórias. Os heróis psicodélicos escreviam tudo com os laptops de última geração, as damas sofrendo por amor pegavam a pena romântica e rabiscavam cartas patéticas, os gatos presos não escreviam porque gatos não sabem escrever, os bombeiros eram na verdade contistas de primeira qualidade.

Os que mais fascinavam Juca-Ansado eram os modernistas. Gostava sobretudo dos irmãos Andrade: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Sabia de cor vários poemas do trio parada dura que para ele eram os três mosqueteiros menos Dartagnan que poderia muito bem ser o Manuel Bandeira, manézinho do coração dele.

Quando Juca-Ansado ficou crescido o suficiente para ser irresponsável e sair aprontando por aí, ele experimentou ácido lisérgico pela primeira vez. E começou a ver coisas maravilhosas em seus livros que lia e aí foram vacas caindo da constelação de Órion, cenas de cinema brotando do palco do Odeon, os Beatles em carne e osso pedindo autógrafo para ele. Juca-Ansado chegou em casa numa noite abraçado com o extintor de incêndio e cantando come on baby, light my fire numa piração estonteante.

E os irmãos Andrade eram parceiros nessas aventuras por outros mundos. LSD, irmãos Andrade, Manuel Bandeira vestido de Dartagnan.

Juca-Ansado foi ficando cada vez mais descansado pois a vida era-lhe se não bela ao menos confortável. Pelo menos o sol brilhava até em penumbrosos dias de chuva e todas as garotas eram bonitas mesmo aquelas desengonçadas com caras de nerd.

Um dia ele decidiu acabar com o LSD, e com o conto. Assim, sem mais nem menos. Quase briguei com ele, dizendo que o conto ainda estava pela metade, faltava o conflito, faltava o desfecho, faltava tudo. Nem parecia um conto ainda.

- Se quiser pode continuar. Mas terá que ser sem mim!, disse-me Juca.

Mas como? Como continuar sem o protagonista? Logo agora que a história vai ficando legal, talvez até emplacasse um Nobel de Literatura, se fosse filme tinha certeza que levaria o Oscar, o conto ia ficar sensacional. Não. Não acredito.

- Ok. Você não precisa acreditar. Estou saindo.

Não pode me abandonar assim. Seu ingrato! Não se esqueça que você é minha criação e...

- Não mandei você me dar autonomia. Vida própria, inteligência artificial, capacidade de ser irreverente.

E agora? O que fazer? Ao menos me diga o porquê disso tudo.

- É que fiquei frustrado. Descobri que você é um tremendo mentiroso. Os irmãos Andrade nunca foram irmãos.

Fiquei só, olhando estático para o computador, resmungando qualquer coisa revoltado. Meu personagem tinha fugido. Em seu quarto restavam apenas um resto de LSD, duas garotas até que bonitinhas e uma vaca das que tinham caído do céu. Os Beatles dormiam ao canto, e roncavam alto os desgraçados! Peguei um livro do Modernismo Brasileiro que repousava, alheio a tudo, sobre a mesa. Fui ver os irmãos Andrade e o Manézinho Dartagnan.

Fala aí!

5.11.03

Fellini, para o bem do cinema  


Faz dez anos que a luz se acendeu, índice fatídico de que o filme havia acabado. Fellini morreu em 31 de outubro de 1993.

Aí que no mundo todo as pessoas estão homenageando o cara. E o cara merece: um dos maiores cineastas da história do cinema. Quem não gosta é porque ainda não entendeu!

Só que, eu moro em Bauru. E esta cidadezinha pacata no interior do estado de São Paulo não tinha nada para o Fellini. Nada. A data ia passar batida. Mesmo nos espaços alternativos do cinema - não vou nem comentar sobre as salas comerciais!

Mas, juntamente com a minha sócia neste bológue, Elis Roxo, estava fazendo uma reportagem radiofônica sobre o cara. E, quando entrevistava Orlando Alves, responsável pelo Projeto Sala de Vídeo do Centro Cultural, esqueci um pouco aquele preceito de que jornalista não deve interferir nos fatos. E sugeri a ele que passasse um ciclo do Fellini. Cedi a ele a filmografia completa do cara, para que ele escolhesse os quatro filmes para o mês de novembro. Orlando aceitou!

Portanto, culpa minha, Fellini em novembro no Centro Cultural:

07/11 - Oito e Meio
14/11 - Ginger e Fred
21/11 - Satyricon
28/11 - Ensaio de Orquestra

Sempre às sextas, 20h, de graça. Avenida Nações Unidas, quadra 9.

Fala aí!

1.11.03

Comida fria, corações frios, corpos frios...

[ solidariedade não tem nada a ver com só lidar com a idade, mas pode muito bem ser uma sólida idade em que todos os homens tenham a cabeça no coração e possam olhar para os miseráveis com mais que dó, com vontade mesmo de ajudar aquelas gentes ]

Um cachorro de rua não é um cachorro apenas. Carrega sarnas em seu corpo mas parece nem ligar. Quase passa fome, mas come o que encontra sem se preocupar se amanhã encontrará algo. Não tem dono e por isso olha com ar superior para os cãezinhos das madames... Eles são livres, e é tão bonito saber que eles dormem ao relento, podendo ser assassinados e virar até cachorro-quente de algum mendigo...

As pessoas por vezes têm pena deles. Dizem que andam sempre raquíticos, corpos esqueléticos, sofridos, farejando lixo em busca de comida. Eu não.

Tenho pena sim das gentes que existem lá longe, na África, no Oriente, no Nordeste, nas favelas de São Paulo, na rua da frente de casa, ou em qualquer outro lugar... Gentes que se alimentam de nada, comem vento, vomitam saudade de pão, enchem o estômago do vazio existencial em que vivem. Tenho pena dessas gentes.


Aforismo sem juízo: Há no mundo pessoas que não têm fome porque nem sabem o que é comida.

Outro dia vi um retrato no jornal de uma negrinha do Zaire, nove anos, aparência de quatro, cinco no máximo, desnutrida, barriga d’água, olhos amarelos... Deus deve estar cego! Tão mirradinha, chorando de fome, e sua mãe preparando uma água suja fervida para tapear o organismo. Em São Paulo fazem sopa de papelão.

Aforismo sem juízo 2: Há no mundo depósitos onde apodrecem comida enquanto gentes apodrecem por falta de comida.

No alto do morro da favela, uma senhora querida por todos conduz a oração: “Pai Nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como no Céu. O Pão Nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as Nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido, não Nos deixeis cair em Tentação, mas livrai-nos de todo o Mal. Amém.” Ao fundo, um neném de poucos meses, sem nome ainda porque a mãe não tinha dinheiro para registrar o rebento, mandar batizar, fazer roupa para a pompa da cerimônia etc., urrava o maior dos chororôs e o mais sofrido de todos eles. Tinha fome.

Por que fome tão grande para criança tão pequena? Deus deve estar surdo! Ou dispensou o padeiro celestial encarregado do Pão Nosso de cada dia.

Aforismo sem juízo 3: Nem só de pão o Homem viverá, mas de toda palavra de Justiça (não esquecer também dos brioches, das bombas de chocolate, das carolinas, dos sonhos e de todos os quitutes de padaria apreciados pela burguesia).

Afeganistão. Em meio a tantas minas terrestres, resquícios mórbidos de guerras anteriores, meninos e meninas famintos brincam de pique-esconde, cabra-cega e amarelinha. Uma maneira que a as mães encontram para distrai-los a eles e aos seus estômagos da fome crônica: “Vão catar coquinhos, ver se estou lá na esquina, procurar agulhas no palheiro...”. E eles vão.

Então um alguém qualquer daquelas gentes novas de pouca idade solta um grito de dor. As pessoas correm para ver e contemplar mais uma vítima dos macabros artefatos bélicos. O menino perdeu a perna. Três dias depois, do alto de suas muletas, o garotinho pára de chorar e fala inocente para seu amiguinho: “Será que demora muito para brotar outra perna?”

Aforismo sem juízo 4: E por falar em solidariedade, devia haver um racionamento de comida. Quem sabe as pessoas aprenderiam o significado da palavra (solidariedade, segundo Aurélio: ‘s. f. Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da própria humanidade’. Palavras bonitas para se pensar).

Pensava em todas essas coisas enquanto olhava para o prato de comida sobre a mesa. Parece que o apetite me fugiu de repente, contemplando a miséria do mundo. Meu Deus, meu Deus, onde estás? por que te escondestes numa hora destas?

Não ouvi resposta. Deus deve estar mudo! E eu tentava agradecer aos Céus pelo meu sustento quando minha mãe:

- Acorda, menino! Coma logo que o almoço esfria!

Então percebi que eu tinha um prato de comida para esfriar, enquanto muitos estão morrendo, esfriando, pela falta de um prato de comida.

[Edison Veiga Junior]

Fala aí!

Budismo moderno  

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
[Augusto dos Anjos]

Fala aí!

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